Relembrando alguns fatos minha memória cantarolou: “meu amor, o nosso amor estava escrito nas estrelas...” então pensei que há coisas que estão escritas, a despeito do nosso esforço em reescrevê-las. E foi o que aconteceu com Irene, Nélio e Mariana.
Irene e Nélio, casados há 15 anos, ambos professores, bem sucedidos profissionalmente. Moravam em pequena cidade, próxima à capital.
Irene, mulher bonita, sofisticada, de abastada família de comerciantes, tinha uns 5 anos a mais que o marido, coisa que não dava para perceber.
Nélio, homem simpático, politizado, professor do curso “científico”, estava na sua mais perfeita forma, no esplendor dos 40 anos, quando segundo a crença popular, o homem vive a “idade-do-lobo”.
Esse casal, após 15 anos de feliz união, experimentava uma crise na relação. Pois não é que Nélio caiu nas graças de uma aluna do 3º ano, moça bonita, de tradicional e rica família da cidade e que tinha muitos anos a menos que ele. O professor não ficou indiferente à simpatia da aluna.
Assim, em poucos meses, cresceu mútua simpatia entre o professor e a aluna. Mariana, jovem além do seu tempo, para fartar o falatório da pacata cidade, logo se tornou “amante” do professor. Viveram uma relação intensa a despeito dos dedos apontados, e a “coitada” da Irene, fazendo vistas grossas, tentando de todas as formas manter o casamento que há muito desabara.
Os amantes estavam de tal forma envolvidos, que o professor finalmente, tratou de se divorciar de Irene.
Inconformada com o divórcio, e mais, com a troca; Irene, depois de muito choro e ranger de dentes, resolveu que iria consultar um oráculo, afinal, haveria de ter qualquer coisa que pudesse ser feita e assim restabelecer o casamento.
Findava a primavera. A professora entrou no carro, rodou alguns quilômetros e quarenta minutos depois estava na cidade vizinha, onde um famoso médium dava consultas. O homem tinha agenda sempre lotada, Irene teve sua “consulta” agendada dias antes por uma amiga que lá residia.
Não houve demora em ser atendida. Entrou. Um homem alto, magro, discretamente vestido, recebeu-a com a mão estendida. Ela logo caiu em choro convulso. O homem ofereceu-lhe um lenço de papel. Depois um copo d’água. Limpou os olhos, bebeu a água.
Acalmou-se. O homem passava tranquilidade, confiança. Ele não usava cartas, búzios ou qualquer outra coisa, apenas o olhar. Olhou-a com firmeza e disse-lhe que no final do verão o professor voltaria para ela, aos pedaços! Dito isso o homem calou. Apertou mais uma vez a mão de Irene que sentiu suas esperanças renovadas.
A esperança iluminou o rosto e aqueceu o coração de Irene. Voltou para casa contando os dias para o final do verão que inda nem começara. Mas valeria a pena... Ele voltaria, provavelmente humilhado e traído pela bela jovem com quem estava “amasiado”, pediria perdão de joelhos... estaria aos pedaços, um caco de homem querendo muito ser perdoado pela esposa que o amava muito e esperara ansiosa sua volta. Foi essa a cena que ela idealizou.
Crendo na profecia, esperou o mais longo e quente verão. O marido gozava o verão em belas praias, em companhia da namorada. O casal havia escolhido uma praia do litoral sul, conhecida pelos cânions que davam à paisagem beleza ímpar, para esticar a lua-de-mel que há meses viviam.
Último mês do verão. Nada novo, nada mudava. Mas a professora não perdia a esperança, afinal o médium nunca erara antes, não haveria de ser agora.
Na última quinzena do verão uma notícia abala a cidade: o professor e sua aluna sofreram um acidente e morreram afogados.
Irene não conseguia convencer-se, o oráculo errara, o marido estava morto e em companhia da amante! Voltaria morto!
Porém os corpos ainda demoraram muitos dias para serem encontrados. Intensas buscas... após uma semana o corpo da moça é localizado e volta para sua família. Comoção geral. Tão jovem, tão ousada... que morte horrível, pobrezinha! A hipocrisia das pessoas é atordoante...
Irene, enlutada, pensava em quanto havia sido errada a previsão do médium, pois nem morto o marido havia retornado. Faltavam três dias para terminar o verão. E eis que os bombeiros localizam um corpo. Era ele. O marido, enfim, voltava... Comido dos peixes, deteriorado pelo tempo, literalmente aos pedaços.
Irene errou! Acreditou no que era bom pra ela. O médium sabia o que estava escrito nas estrelas!


Uma história que faz a mistura perfeita entre o real e o irreal . Fatos e crenças - terra e céu .... eternos componentes da vida.
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